Caracterização
 
Cenário
 
Estratégias e Ações
 
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Fatores facilitadores
 
Parcerias
CAFÉ
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 Caracterização
        
        Maior produtor mundial de café, o Brasil se distingue dos demais por ser também um grande consumidor, o segundo, superado apenas pelos Estados Unidos, com consumo superior a 13,6 milhões de sacas de 60kg, em 2001, o que dá cerca de 4,8kg (em grão) por pessoa/ano. O café é simbolo de hospitalidade e estimulante diário em milhões de residências e locais de trabalho. Seu cultivo está profundamente vinculado à história e à cultura do país. Existe uma estreita relação entre a cultura e os cafeicultores que é muitas vezes decisiva quando enfrentam o dilema de optar ou não pela conversão da lavoura.

      Onze Estados e 1.850 municípios brasileiros cultivam café, sendo Minas Gerais o principal estado produtor, seguido de Espírito Santo, São Paulo, Bahia e Paraná. O número de propriedades rurais cafeeiras é estimado entre 221 mil e 300 mil. Ainda que sem uma indicação oficial definitiva, calcula-se que mais de dois terços dessas propriedades estejam produzindo através da agricultura familiar. Apesar da intensificação dos cultivos e expansão das áreas plantadas em grandes lavouras mecanizadas, a produção de café continua a ter importância social relevante.

      A agricultura familiar produz cerca de 25% do café brasileiro. Esse índice varia segundo a região do país: no Sul chega a 43%, no Centro-Oeste a 63%, no Norte a 94%, no Nordeste a 23% e no Sudeste a 23%. Essas pequenas unidades de produção são cultivadas não só pelos donos, como também por parceiros, arrendatários e assalariados rurais. Quando há espaço, é comum que filhos casados continuem trabalhando na mesma terra. As propriedades rurais de perfil familiar, se devidamente apoiadas com crédito e tecnologia, têm muitas vantagens em relação às grandes fazendas, pois são mais produtivas, economicamente viáveis e preservam melhor o meio ambiente.

       Porém, esses agricultores, que têm no café sua principal fonte de renda, vêm perdendo espaço por falta de apoio, enfrentando grandes obstáculos, como a falta de produção em escala (o que dificulta seu acesso ao mercado, principalmente no de cafés finos), a ação dos intermediários e a ausência de uma política agrícola que facilite o acesso às novas tecnologias, à assistência técnica pública e gratuita e aos financiamentos para infra-estrutura e custeio da safra. Pelas pequenas dimensões das propriedades, poderiam estar produzindo cafés finos, de elevada qualidade – um dos desafios colocados para a cafeicultura nacional.

       O perfil da produção brasileira vem se alterando nos últimos anos, com tendências para a concentração das áreas e extensão dos plantios. O mercado tende a eliminar os cafeicultores pouco competitivos, ao mesmo tempo em que grandes produtores têm feito altos investimentos em mecanização e irrigação, especialmente em novas fronteiras agrícolas nos Estados da Bahia e Minas Gerais.

      Observa-se a migração do café entre as principais regiões produtoras. O Paraná, principal produtor nacional na década de 60, afetado pelas constantes geadas, vê seus produtores migrarem para outras regiões, principalmente para o Estado de Minas Gerais que desponta, a partir da década de 80, como o principal produtor, com quantidades superiores a 50% da produção total nacional, principalmente em regiões que conjugam fatores climáticos favoráveis com a capacitação empresarial dos produtores, aliados a grandes cooperativas.

      Metade dos empregos gerados pelo café no Brasil se encontra em Minas Gerais, que lidera a produção nacional, movimentando nesse Estado US$800 milhões/ano, gerando 4,6 milhões de postos de trabalho diretos e indiretos. Quase todo o cultivo no Estado de Minas Gerais é da variedade arábica, de qualidade superior e bem aceito nos mercados consumidores. A maior parte da produção mineira de café se concentra no sul do Estado a uma altitude média de 950 metros. O Cerrado mineiro é uma região de clima seco na colheita, propícia para cafés superiores, cujo cultivo é recente, com fazendas que investem na produção mecanizada, em larga escala, principalmente pelo relevo plano da região – que permite a mecanização da colheita e dos tratos culturais, reduzindo custos com a mão-de-obra e contribuindo para a melhoria da qualidade do produto.

     São Paulo possui atualmente somente 12,4% da produção nacional, com áreas concentradas na região norte do Estado. É o estado que tem a maior importância para o agronegócio do café, por sua infra-estrutura portuária para escoamento da produção nacional e por possuir o maior parque industrial de café do Brasil.

      A Bahia detém 4,4% da produção nacional, com plantio em três regiões do Estado, onde se cultiva o arábica e o robusta. O Cerrado baiano tem atraído um número expressivo de empresas que cultivam o café arábica em lavouras mecanizadas e irrigadas de grandes extensões, pelos mesmos motivos que tornaram o Cerrado mineiro um grande produtor e exportador de cafés finos para o mercado internacional. Entretanto, novos riscos estão surgindo com o deslocamento das áreas de cultivo (em função das geadas), principalmente em lavouras adensadas, pois essas novas fronteiras estão sujeitas à seca, que tende a ser danosa para a competitividade e sustentabilidade do agronegócio café, com impactos no mercado, além de afetar a produção por períodos mais extensos.

     O estado do Paraná, outrora grande produtor, atualmente possui 156 mil hectares, detendo 4,3% da produção brasileira. Porém, duas das maiores exportadoras de café solúvel do país (Cacique e Iguaçu) estão instaladas no Estado.

     O Estado de Rondônia, maior produtor da Amazônia, possui 160 mil hectares, com produção de 1,4 milhões de sacas, das quais 90% de robusta.

     O Estado do Espírito Santo, tradicional produtor de café arábica, encontra-se na segunda posição do ranking nacional na produção de café, principalmente pelo grande incremento na área cultivada com a espécie robusta, sendo, atualmente, responsável por 70% da produção nacional dessa espécie, o que o coloca na posição de primeiro produtor nacional de café robusta. A totalidade dos municípios do Estado tem produção de café. Das 82.400 propriedades rurais, 56.169 têm no café a sua principal fonte de renda, sendo 40,4% com predominância do café arábica e 59,6% com café robusta.

     A área implantada com café está em cerca de 220 mil ha para arábica e 330 mil ha para conilon. Em café arábica, a mão-de-obra utilizada na atividade é composta por 44% de proprietários, 51% de parceiros rurais e 5% de empregados e, em conilon, por 47% de proprietários, 47% de parceiros rurais e 6% de empregados, envolvendo diretamente nas lavouras cerca de 360 mil trabalhadores e demonstrando a importância da agricultura familiar e seus desdobramentos econômicos, sociais e ambientais nas relações de produção de café, tanto do arábica quanto do robusta no Espírito Santo. Ressalte-se, ainda, o tamanho médio das lavouras de café arábica, com 8,65 ha, e de robusta, com 9,85 ha. Outro fator que merece destaque refere-se à estratificação das propriedades cafeeiras de robusta, em que cerca de 74% da área plantada situa-se em estratos inferiores a 50 ha, com 28% das propriedades apresentando menos de 10 ha.


Quadro 5: Caracterização do parque cafeeiro capixaba, 1998.
Fonte: TEIXEIRA, 1998.

          A produção de café no Espírito Santo situava-se ao redor de 3 milhões de sacas anuais, tendo, nos últimos 5 anos, um grande incremento, passando, progressivamente, para 5 milhões em 1998, quase 8 milhões em 2001 e cerca de 9 milhões em 2002, principalmente pela grande produção de robusta (quadro 6).

         O Valor Bruto da Produção (VBP) da cafeicultura capixaba evoluiu de R$470 milhões em 1996 para R$ 710 milhões em 2002, com previsões de cifras superiores a R$ 900 milhões para 2003.


Quadro 6: Produção de cafés no Estado do Espírito Santo. Período de 1992 a 2002 (em mil sacas).
Fonte: Incaper, 2003.

         É interessante notar o destino dos cafés capixabas. Do total da produção de arábica, 70% são exportados e 30% abastecem o mercado interno; no caso do robusta, na média, 40% são exportados e 60% ficam no mercado interno, com predominância de compra pelas solubilizadoras. O Espírito Santo possui uma logística altamente favorável ao escoamento da produção para o exterior, não apenas do próprio café como o das “matas de Minas Gerais”, por meio da BR-262, e o do cerrado mineiro, pela ferrovia. O Porto de Vitória tem aumentado sua importância na exportação de cafés verdes, atingindo, em 2003, a soma de 8,2 milhões de sacas de 60kg exportadas, permitindo o escoamento da grande safra de robusta produzida no ano de 2002 (quadro 7).

Quadro 7: Exportações de café pelo porto de Vitória (1990-2002).

Exportações por Vitória (em sacas de 60Kg).

        O zoneamento agroclimático do Estado do Espírito Santo mostra as regiões mais aptas à implantação das culturas de café arábica e robusta, demonstrando que a área apta ao plantio do café arábica é cerca de 3,3 vezes a área atualmente implantada. Se considerarmos as áreas com restrições térmicas, situadas entre 800 e 1100m, que podem ser superadas pela utilização de corretas variedades, mais tolerantes ao frio e o uso de quebra ventos, acresceremos mais 187 mil ha à área total. As áreas aptas e aquelas com restrições hídricas, hoje trabalhadas através de irrigações planejadas, somam mais da metade da área do Estado do Espírito Santo. Porém, a competitividade da lavoura de robusta exigirá a mudança da fronteira agrícola para áreas, hoje, não tradicionalmente cultivadas com essa espécie, principalmente na região sul do Estado, abaixo do rio Doce.

      A produtividade média do café arábica, que em 1993 era de 4,43 sacas/ha, passou para 11 sacas/ha em 2002. A do conilon, no mesmo período, passou de 9,0 para 21,3 sacas/ha, superando as metas o RECAFÉ (Programa de Revitalização da Cafeicultura Capixaba), lançado em 1993. Esses avanços, basicamente se deveram à ação de intervenção pública, em parceria com o setor privado, na lavoura cafeeira estadual. Para o robusta foi desenvolvido um conjunto de tecnologias visando alta produtividade e resistência à seca, composto de: variedades clonais com maturação mais uniforme e em períodos distintos (precoce, médio e tardio) e resistentes à seca; produção de mudas através do processo de clonagem “in vivo”; recomendação de adubações apropriadas para a espécie baseadas em análises de solo e no DRIS; poda e condução das lavouras com número de hastes adequadas por hectare; calagem e irrigação planejada. Essas tecnologias têm sido adotadas rapidamente pelo cafeicultor de robusta.


Quadro 8: Safra agrícola cafeeira no Espírito Santo – 2002/2003.
Fonte: Incaper, 2003.


          Para o café arábica, procedeu-se à transferência de tecnologias de baixo custo já existentes, às corretas e adequadas adubações, bem como à correção dos solos baseados em análises e intervenções nas lavouras, com recepa e eliminação daquelas pouco produtivas e anti-econômicas. Ainda, incentivou-se o manejo de pragas e doenças das lavouras visando, principalmente, o correto uso de agrotóxicos, e a redução de sua utilização, com controle eficiente das pragas agrícolas e consequente impacto sobre a produtividade, o meio-ambiente e a qualidade do café. Como exemplo, pode-se citar o Programa de Manejo da Broca-do-Café. Esse conjunto de atividades culminou no lançamento do Programa de Sustentabilidade para o Café das Montanhas do Espírito Santo, em 1999, pela Secretaria de Estado da Agricultura, com ênfase na produtividade e qualidade dos cafés produzidos nas montanhas do Espírito Santo, de forma econômica e com mínima interferência no ambiente circundante, de forma a não contaminá-lo e, acima de tudo, preservá-lo. O objetivo principal do programa consiste na integração de ações e parcerias entre os setores componentes do agronegócio café, visando à agregação de valor ao café produzido, desestigmatizando o café capixaba como um produto de qualidade inferior, com conseqüente melhora no nível de vida do cafeicultor estadual.

        A estimativa da safra agrícola cafeeira do Espírito Santo para 2002/2003 prevê a queda da produtividade média estadual para 8,15 sacas/ha para arábica e 19,17 sacas/ha para robusta, em uma área produtiva de 220 mil ha para arábica e 330 mil para robusta (quadro 9).


Quadro 9: Safra cafeeira no Espírito Santo– 2003/2004-primeira estimativa.
Fonte: Incaper, 2003.

         Os principais municípios produtores de café estão localizados e identificados conforme extrato de área e de importância socioeconômica para a cafeicultura, nos quadros 10 e 11 e figuras 2 e 3. Destacam-se os municípios de Iúna, Brejetuba, Muniz Freire, Afonso Cláudio e Vargem Alta na produção de café arábica e os municípios de Jaguaré, Vila Valério, Sooretama, Nova Venécia e São Gabriel da Palha na produção de conilon. Esses municípios são responsáveis por cerca de 50% da safra cafeeira estadual.

        Com relação à produtividade do café conilon, houve aumento significativo nas regiões Litoral Norte e Central. No entanto, na região Sul do Estado, os municípios polarizados por Cachoeiro de Itapemirim e Alegre estão em faixa de produtividade abaixo da média estadual. O mesmo ocorre com os municípios polarizados por Barra de São Francisco, na região Noroeste.

Quadro 10: Municípios produtores de café robusta no Espírito Santo. Extratos das áreas. Safra agrícola 2001/2002.
Fonte: Adaptado de LSPA, 2002.

         A produtividade do café arábica estadual está abaixo da média nacional. Este fato em sido agravado pelos sucessivos anos de preços baixos do café e descapitalização do cafeicultor, levando-o a utilizar menores quantidades de insumos e controle fitossanitário deficiente. Resultados melhores têm sido alcançados pelos municípios da região Central, enquanto que na região Noroeste os resultados estão abaixo do esperado.
Nas regiões onde a produtividade está abaixo da média estadual, observa-se a exploração de lavouras antigas, em áreas não vocacionadas, com densidade de plantio e espaçamentos inadequados, além do material genético utilizado não ser responsivo aos melhores tratos culturais. Deve-se, também, atentar que muitas lavouras abandonadas estão sendo incluídas nas estatísticas federais.


Quadro 11: Municípios produtores de café arábica no Espírito Santo. Extratos de áreas. Safra agrícola 2001/2002.
Fonte: Fonte: Adaptado de LSPA, 2002.


          A qualidade do café arábica capixaba vem sendo explicitada publicamente por técnicos e degustadores desde 1998. Os cafés capixabas são classificados de acordo com a freqüência de ocorrência de tipos e de bebida. Trabalhos realizados em 2001, em todo o Estado do Espírito Santo, evidenciam que 28,24% das amostras analisadas apresentaram tipo 6 para melhor e que a maior incidência foi de amostras com tipo 7 (26,69%). As bebidas mais comumente encontradas nas amostras do café arábica capixaba foram Rio (43%), Rio-zona (23%), Dura (21%) e Riada (13%). O tamanho da fava, outro fator importante para a venda de cafés finos, também foi verificada, notando-se que 62% das amostras apresentavam peneiras 17 e acima, 29% peneiras 14 a 16 e 9% peneiras 13 e abaixo, evidenciando que a região é propícia para a produção de fava graúda. Quando se trabalha com cereja descascada, a qualidade da bebida tende a melhorar sensivelmente, podendo-se obter 100% de bebida dura e melhor, com 73% de bebida superior à mole, com melhoria, inclusive, no aspecto geral do produto. Nosso grande entrave encontra-se na desuniformidade de maturação na colheita, reduzindo sensivelmente o rendimento na obtenção do Cereja-Descascado (CD). Além disso, os custos de produção e processamento do café CD aumentam sensivelmente, com necessidade de se parcelar a colheita em busca de melhor rendimento, sendo necessários investimentos em: lavador, descascador, desmucilador, terreiros, secadores e estufas para sua secagem e tratamento dos resíduos provenientes do descascamento do café.


Figura 2:

Figura 3:


           O trabalho direto, realizado por degustadores nas Salas de Prova de Café, em instalação em 13 municípios do Estado, permite a assistência técnica individualizada e a momentânea correção de erros praticados na colheita e pós-colheita do café, capacitando o cafeicultor capixaba e melhorando, já na safra seguinte, a qualidade do café desses produtores e, conseqüentemente, da região. Isso pode ser visto quando se analisam os resultados obtidos, principalmente pelas Salas de Prova de Venda Nova do Imigrante, Brejetuba, Iúna e Santa Maria de Jetibá. A melhoria da qualidade geral do “Café das Montanhas do Espírito Santo” permitirá a obtenção de volumes significativos, de forma a ampliar a participação no mercado de cafés finos e diferenciados. Estima-se em cerca de 80 mil sacas de 60kg a atual quantidade comercializada desses cafés superiores das Montanhas do Espírito Santo.

         O mercado de cafés especiais tem sido grandemente estimulado pela realização de concursos de qualidade, como aqueles patrocinados pela Illycafé e pela Ueshima Coffee Company (UCC), em parceria com a Tristão Café, na região das Montanhas do Espírito Santo. Ainda assim, o mercado para esses cafés superiores produzidos no Espírito Santo é restrito, necessitando-se trabalhos para a abertura de novos e promissores mercados compradores.

         Para o café robusta, o número de defeitos encontrados nas amostras variou conforme a região de produção, de 118 a 245, sendo a média estadual de 205 defeitos. A freqüência de ocorrência de tipos de café robusta evidencia que as maiores incidências foram de amostras com tipo 7/8 (28,5%), tipo 6/7 (22,0%) e tipo 7 (18,50%). O tamanho da fava é outro fator importante para a cafeicultura de robusta, tendo-se observado que 67,5% apresentaram peneira 15 ou superior. Recentemente teve início o descascamento do café robusta – CONILON CD – buscando-se a abertura de mercados diferenciados para o conilon capixaba, bem como sua melhor utilização nos blends das indústrias do café solúvel e do torrado e moído. Seu mercado internacional é hoje estimado pelo Centro do
Comércio do Café de Vitória (CCCV) em cerca de 300-500 mil sacas por ano.

       Porém, observa-se que os preços do café atingiram um dos mais baixos preços históricos, no período de julho de 2001 a maio de 2002. O café arábica de bebida superior (bebida dura) foi comercializado com uma margem de lucro maior quando comparado com o arábica 7 (figura 4). Os preços praticados para o café conilon foram cerca de 40% inferiores a este último, provocando séria crise na cafeicultura familiar do Espírito Santo, afetando a qualidade de vida dos parceiros agrícolas (meeiros, proprietários) e a dos trabalhadores rurais, notando-se seus efeitos em todos os segmentos do comércio e dos serviços, especialmente nos 65 municípios do Espírito Santo que dependem sobremaneira da cafeicultura como principal fonte de renda.

       As cooperativas de produtores de café encontram-se em diversas fases de desenvolvimento técnico e administrativo, com participações diferenciadas na comercialização de café e na classificação e degustação do produto. Algumas delas promovem o beneficiamento e rebeneficiamento, bem como o armazenamento para os associados, porém, a maioria delas apresenta poucas condições para prestar esse serviço. Uma das que possui maior espaço para armazenamento é a COOABRIEL, localizada no município de São Gabriel da Palha. Atuam no setor cooperativista da cafeicultura capixaba a CAFESUL (Cooperativa dos Cafeicultores do Sul do Estado do Espírito Santo), a CAFEICRUZ (Cooperativa Agrária dos Cafeicultores da Região de Aracruz), a COPBARRA (Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de Barra de São Francisco), a COOPERDORES (Cooperativa Agrícola dos Pequenos Produtores de Dores do Rio Preto), a CACIL (Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de Iúna Ltda.), a COOPE-AVI (Cooperativa Agropecuária Centro-Serrana), a Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de Jaciguá Ltda., a COOABRIEL (Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel Ltda.), a Cooperativa dos Cafeicultores de Guaçuí, a COOCAJAL (Cooperativa dos Cafeicultores de Jaguaré Ltda.) e a PRONOVA (Associação dos Produtores de Venda Nova do Imigrante). A COOCAFÉ (Cooperativa de Cafeicultores da Região de Lajinha Ltda.), em atuação integrada com a CACIL, possui armazém no município de Irupi e vem tendo marcante atuação na comercialização de café na região do Caparaó.

       Nesse momento de baixos preços do café, existe a necessidade de fortalecimento das cooperativas de cafeicultores, como forma de aglutinação dos produtores, capacitando-os para o enfrentamento das dificuldades, instrumentalizando-os na comercialização de café de forma mais competitiva, assim como na compra de insumos a custos compatíveis com a realidade mercadológica, a fim de que se possa diminuir custos e aumentar a participação dos associados/cooperados na venda de cafés de qualidade superior diretamente aos exportadores/compradores internacionais.

Figura 4:
OBS: PREÇOS PAGOS AO PRODUTOR FOB EM VITÓRIA-ES
FONTE: CETCAF, 2003. www.cetcaf.com.br

         Porém, os principais problemas relacionados às cooperativas de cafeicultores no Espírito Santo são: concorrência desleal dos compradores particulares, falta de crédito junto às instituições financeiras, rigor e desigualdade na cobrança de tributos (principalmente PIS, COFINS e INSS), falta de consciência cooperativista, infra-estrutura para transporte e armazenamento deficitária, baixo capital de giro, baixo entrosamento com outras cooperativas, falta de informações mercadológicas, péssimas condições das máquinas ambulantes de beneficiamento do café, baixa qualidade do café utilizado pelas torrefadoras, êxodo rural dos cafeicultores, armazéns urbanos causando poluição ambiental proveniente do beneficiamento de café, além de falta de política para o setor e intervenções governamentais desastrosas, aliada à necessidade de alocação e treinamento de degustadores habilitados.

        O segmento de torrefação e varejo está mais focado no consumo e adiciona valor ao café via blendings, marcas e distribuição. Suas margens de lucro são bem maiores que as dos produtores. No mercado nacional podemos presenciar a atuação de quatro grandes empresas internacionais: Sara Lee (EUA), Melitta (Alemanha), Strauss-Elite (Israel) e Segafredo (Itália), que controlam cerca de 38% do mercado interno. Das mais de 1.300 torrefadoras existentes no Brasil, somente a Sara Lee e a Melitta têm presença em praticamente todo o teritório nacional. As pequenas e médias torrefadoras ainda desempenham papel importante em nível local, porém vêm perdendo espaço para as grandes. As marcas Café do Ponto, Pilão, Caboclo, União e Seleto, com 25% do mercado nacional, são controladas pela Sara Lee. A torrefadora Três Corações foi adquirida pelo grupo Strauss-Elite, em 2000.

       No Espírito Santo, trabalho realizado pelo Sindicato das Indústrias da Torrefação e Moagem, em 2003, constatou a existência de 37 marcas de café capixaba sendo comercializadas no Estado, consumindo 15.154 sacas de café por mês, das quais 13.503 sacas de café arábica (89%) e 1.651 sacas de café conilon (11%). A aquisição preferencial dos cafés utilizados nos blends é realizada na região das Montanhas do Espírito Santo (40%), região Norte (30%), região Sul (20%) e Estado de Minas Gerais (10%). A ocupação do mercado capixaba por marcas locais está ao redor de 88% a 92%; entretanto, as indústrias utilizam, apenas, 32% de sua capacidade produtiva instalada. Abrangem os mercados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais, e produzem cafés tradicionais (19 marcas), gourmet (4), espresso (3) e alto vácuo (2), gerando 385 empregos, sendo 89 no setor de produção, 47 no setor administrativo e 249 na comercialização.

        O consumo interno de café torrado e moído no Estado, em 2001, foi de 209,3 mil sacas (4,1kg/pessoa/ano) (quadro 12), representando apenas 2,65% da produção total capixaba. A indústria de torrefação e moagem local processou cerca de 5,6% da produção estadual de arábica, no ano de 2002.


Quadro 12: Consumo de café no Brasil em 2001, por estado.


         As agroindústrias rurais de processamento artesanal de café, conforme constatado na pesquisa, processam cerca de 5.520 sacas de 60kg/ano, sendo 93% de café arábica e 7% de conilon, comercializadas basicamente em nível de município, com café tradicional e público preferencial na classe média/alta. Geram 62 empregos distribuídos na comercialização (17), administração (19) e na produção (26).

       Apesar de, no mercado interno, o consumo per capita ter crescido substancialmente, retomando os índices da década de 70, ele pode crescer ainda mais, tendo em vista o baixo consumo existente. Cafés de melhor qualidade, mais propaganda e novas formas de preparo e consumo do produto podem aumentar esse mercado.

       No Brasil, existiam cerca de 220 empresas exportadoras de café, boa parte das quais de pequeno e médio porte, de origem familiar, bem conhecidas no mercado externo e fazendo poucos investimentos em logística. Costumam terceirizar transporte e armazenagem. Como estão focadas na oferta, da mesma forma que os produtores, encontram obstáculos para atuar em escala. Por isso, têm margens de lucro reduzidas e ficam, assim, mais vulneráveis às oscilações do mercado. Nos últimos anos, houve uma redução do número de empresas exportadoras, existindo, hoje, 103 empresas atuantes no segmento da exportação (CECAFÉ, 2002). Observa-se que, das dez maiores empresas brasileiras exportadoras de café, seis encontram-se com sede fiscal no Estado do Espírito Santo: Tristão (1ª), Unicafé (2ª), Coimex (5ª), Nicchio (6ª), Rio Doce (9ª) e Custódio (10ª). Existe uma tendência na concentração, mas, o processo ainda é incipiente.


Figura 5: Exportações brasileiras de café verde e solúvel.
Fonte: CECAFÉ



        No que tange ao segmento de solúvel, nove indústrias fabricam café solúvel no Brasil. As cinco maiores exportadoras são Cacique (30%), Nestlé (26%), Realcafé (9%), Iguaçu (9%) e Cocam (9%) que, juntas, detêm mais de 80% das exportações brasileiras, estimadas, para 2002, em um volume equivalente a 2,5 milhões de sacas de café verde (2,6 unidades de café verde geram uma de café solúvel). O mercado interno é dominado pela Nestlé (80%) que comercializa, no país, um volume de café solúvel avaliado pelo setor empresarial entre 500 mil e 800 mil sacas de café verde/ano. Há perspectivas de expansão do mercado interno, pois muitas torrefadoras, para fortalecer a imagem, estão terceirizando a produção de café solúvel. Em junho de 2002, a Nestlé iniciou a construção de uma nova fábrica de café solúvel no interior de São Paulo, com investimentos previstos da ordem de R$ 95 milhões e se tornará a maior produtora de ”Nescafé” do mundo. Seus principais mercados serão Rússia e Ucrânia, para os quais prevê exportar 22 mil toneladas de café. A REALCAFÉ, empresa do Espírito Santo, também está ampliando sua fábrica de solúvel, com previsão de utilização de 500 mil sacas por ano, em 2005, com foco no mercado externo. Existem mais de 70 marcas de café solúvel disputando o mercado interno, porém, concentrando-se no público de baixo poder aquisitivo.

       O volume de recursos alocados na cafeicultura capixaba durante o ano de 2002, pelo Banco do Nordeste do Brasil (quadro 13), Banco do Brasil, SICOOB-ES (quadro 14) e BANDES chegou a cerca de R$ 132,8 milhões (quadro 15), dos quais R$ 94,5 milhões para custeio, R$ 22,2 milhões para comercialização (CPR) e R$ 16,1 milhões para investimento. Das informações obtidas junto aos órgãos financiadores, verificou-se que para cada contrato (total de 553 contratos) realizado para investimento pelo BANDES, foram alocados, aproximadamente R$ 14.600,00. Para custeio, informações obtidas junto ao SICOOB-ES, mostraram que foram firmados 6.907 contratos, com valor médio de R$ 4.327,00 por contrato. Em comercialização (CPR), foram realizadas 590 operações, com um valor médio de R$ 29.661,00 por contrato (SICOOB-ES, 2002).


Quadro 13: Financiamentos para a cultura do Café no Estado do Espírito Santo-BNB


Quadro 14: Recursos aplicados na cafeicultura capixaba pelo SICOOB-ES. Ano 2002.


Quadro 15: Aplicação de recursos na cafeicultura capixaba (arábica e robusta), na safra agrícola 2001/2002 (em R$ mil).